E porque este blog é sobre política
Ilustre Filho de Davi é uma invocação de São José que se refere à sua origem nobre e política, descendente do Rei Davi e, portanto, príncipe de Israel. Lembra o príncipe destronado, que teve que fugir para a terra em que seus ancestrais foram escravos, o Egito, e trabalhar com as próprias mãos como carpinteiro para sustentar a família.
Durante a sua vida, o mundo estava na mão do temido Império Romano e uma elite corrompida aliada ao dominador governava o que sobrava de Israel. Décadas antes, seus últimos herois, os Santos Macabeus, haviam sido mortos e quase não haviam homens e mulheres corajosos que enfrentassem a situação vigente. E quando haviam, queriam resolver as coisas por suas próprias mãos e terminavam presos ou mortos. Dos profetas, pouco se falava, embora advinhos, magos, falsos profetas e charlatães haviam muitos.
E para aumentar a perplexidade de Israel, nesse mundo de paz aparente, o imperador romano arrogou-se o título de augustus, divino, e o epíteto de salvador do mundo. Seria este o salvador?
Por outro lado, uma grande esperança pairava em algumas partes do mundo, uma ideia confusa de que as coisas estavam por mudar. Havia poetas como Virgílio que falavam sobre mudanças, sibilas que pareciam falar de coisas novas, profecias que circulavam na Pérsia acerca de um rei entre os judeus... e havia, sobretudo, as profecias de Israel.
Mas poucas eram as famílias que esperavam a salvação de Israel pelo próprio Deus, como Ele havia prometido. A maioria delas, mesmo as religiosas, esperavam, na verdade, uma solução política, uma solução humana, para um problema que ultrapassava todas as capacidades dos homens e mulheres daquele tempo.
E inesperadamente, este príncipe destronado, que aparentemente havia perdido tudo, recebeu do próprio Deus a missão de governar os bens mais preciosos do universo, Jesus e a Virgem Maria. Como diz a Ladainha de São José: "Ele o constituiu Senhor da Sua casa. E fê-Lo Príncipe de todos os seus bens". Aquele príncipe tinha a missão de governar nada menos que a Virgem Maria e o próprio Deus. E isto era totalmente inesperado, inaudito. Quem poderia conceber que quando o mundo caminhava a passos lentos e modorrentos para uma decadência sem fim, disfarçada pela aparente e superficial pax romana, o próprio Deus viria até nós, fazendo-se um de nós no seio puríssimo da Virgem Maria?
E que viria para os braços fortes e carinhosos de São José? Como o grande patriarca poderia conceber uma coisa dessas?
E então, o príncipe destronado de coração justo, foi feito senhor do próprio Deus.
A vida de São José nos fala ainda muitas coisas sobre o que é propriamente governar, e em que verdadeiramente consiste seu senhorio, esta palavra que hoje sequer utilizamos.
Sendo pai de Jesus e esposo de Maria, era Ele o responsável por proteger a sua casa e assim o fez com coragem, fugindo para o Egito e depois para Belém antes de retornar a Nazaré. Era ele ainda o chefe da família e foi a Ele que o anjo disse para pôr o nome de Jesus no menino.
Sendo pai de Jesus e esposo de Maria, era Ele o responsável por proteger a sua casa e assim o fez com coragem, fugindo para o Egito e depois para Belém antes de retornar a Nazaré. Era ele ainda o chefe da família e foi a Ele que o anjo disse para pôr o nome de Jesus no menino.
São José, sendo o chefe era o menor. E estava a serviço dos demais. O menino era o mais importante, e, no entanto, era o que mais obedecia. Depois dEle, a Virgem Maria ocupa o maior lugar diante de Deus e José, embora grande, era o menor. Que belíssimo e surpreendente paradoxo!
A vida humana é uma sinfonia de relações em que servimos, obedecemos e lideramos, mas numa partitura que é dada pela natureza das coisas, pela nossa própria natureza, homens e mulheres, e orquestrada pelo próprio Deus tendo em vista termos o brilho mais refulgente possível na eternidade, quando estaremos totalmente unidos ao Seu Coração.
Que a humanidade muitas vezes tenha feito disso puro ruído, não se deve a partitura, nem ao maestro, pois este quis depender do empenho dos seus instrumentistas.
E é interessante notar como esse pequeno trecho do Evangelho já nos ensina tantas coisas sobre o papel do homem, da mulher e em que consistem as relações de submissão, obediência e governo.
Negar as diferenças, com a sua devida complexidade, é impor sobre a realidade uma uniformização artificial, que nos impede de vivermos os equilíbrios sutis, as potencialidades refinadas e as relações ricas de significado e simbolismos que temos entre nós, tornando-nos seres egoístas, de pensamento obtuso, que pensam somente em termos de poder e dominação.
A casa de José era ainda a casa do Rei do Universo.
E este Rei ainda está em luta, reconquistando o Reino que os homens entregaram aos demônios, até que Ele governe novamente todas as coisas. E é essa a esperança dos cristãos.
E por onde começou esse Reino? Por onde começou essa primeira Cruzada? Em uma casa, oculta, em uma vila afastada dos grandes centros, quando apenas uma resto da antiga Israel era ainda fiel, e já não existiam mais insignias reais, cavalos, cavaleiros e símbolos de nobreza entre os verdadeiramente nobres. Ali, naquela pequena casa, cuja pobreza podemos contemplar graças ao milagre de Loreto, estava o início, as primícias de uma nova criação, ali estava o coração de um homem, valoroso, fiel, justo, que honradamente com o seu trabalho simples servia à sua Mulher e ao seu Filho. Ali estava o Ilustre Filho de Davi.
