Archive for dezembro 2017

A CRISE SEPARATISTA NA CATALUNHA



A vitória parcial do movimento separatista na Catalunha que conquistou (somando-se todos os partidos pró-independência) 70 cadeiras e 48% dos votos contra 37 cadeiras do partido Ciudadanos, pró-Madrid, na última eleição parlamentar abriu uma nova temporada de tensão e angústia para o futuro da região e da Espanha. E embora este seja um problema eminentemente do povo catalão e espanhol, vale a pena um comentário nosso, brasileiros da periferia do Ocidente, por que afinal, o mundo e a humanidade são uma só.

O que chama a atenção nesse movimento, bem como a Liga Norte na Itália, de menor expressão, é seu caráter eminentemente econômico. Não estamos falando de raças, povos, línguas (talvez em menor grau) exploração e etc, mas de uma região rica que se ressente em enviar muitos recursos para as regiões mais pobres. Ainda que as regiões pobres da Espanha não sejam as nossas regiões pobres.
Não há dúvida de que seja justo questionar uma carga tributária excessiva e renegociar acordos e etc, mas ressentir-se de contribuir demais com o resto do país a ponto de buscar a independência...é este um argumento razoável no que conhecemos como mundo civilizado? Se a razão fosse história, uma necessidade de maior expressão cultural de um povo ou outra coisa do gênero, o debate me pareceria bem mais sensato e, como já disse, é algo estritamente relacionado às partes envolvidas. Mas o que eu queria debater aqui é a legitimação a nível global de argumentos pautados na ganância, no individualismo e no poder econômico. Seja nesses movimentos separatistas seja no nacionalismo econômico de Steve Banon que dá suporte à agenda de Trump. E já coloco aqui a ressalva que são coisas bem distintas, embora eu encontre este aspecto em comum.

Será que no final é isso que teremos? Os mais ricos se reúnem e se tornam “independentes” dos mais pobres?

Genovesi, pensador do humanismo civil italiano do século XVIII (se não me falha a memória com as datas), tomista e católico, ao colocar-se o problema da usura, ou da cobrança de juros sobre empréstimos aos pobres, diz o seguinte: “É justo cobrar juros do seu concidadão? Sim, desde que não seja um pobre. Pois o pobre tem o direito à ajuda dos seus concidadãos”. E, podemos concluir, a existência da cidade consiste justamente na solidariedade entre os seus concidadãos.

Ora, Aristóteles já dizia que somos animais sociais, que vivemos em cidades. Genovesi, mais além, vai dizer que homens só podem ser felizes em cidades. E Luigino Bruni, pensador católico contemporâneo dá ainda mais um passo ao afirmar que só podemos nos realizar plenamente por meio de relações gratuitas, como a amizade.

É ingenuidade pensar que seja outra coisa que move o mundo do que o autointeresse das pessoas. Mas para onde move esse mundo? Estamos mais felizes? Ou estamos transformando cada vez mais as cidades, e os países, em amontoados de pessoas, sem trocas simbólicas, sem fidelidade, sem história, sem felicidade? Se queremos movê-lo bem, não devemos voltar (embora nunca tenhamos tido uma era histórica perfeita) às coisas importantes, à solidariedade que cada pessoa deve ao seu vizinho, aos seus amigos?


Eu penso que comunidades independentes, autônomas, podem conviver harmonicamente umas com as outras, emergindo organicamente de acordo com as necessidades concretas de um e outro lugar. Mas quando o fundamento dessas comunidades é o próprio bolso, podemos encher os cofres, mas vamos terminar por esvaziar as cidades.

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O QUE GREGORIO DUVIVIER NÃO ENTENDEU SOBRE O NATAL


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Bem, na verdade ele não entendeu nada. Mas criou, de novo, uma boa polêmica, afinal todo Natal e Páscoa é isso agora. O que há de inteligente na polêmica é que ela se aproveita de uma ideia infelizmente bastante disseminada para fazer palanque desse novo velho progressismo que parece ter eleito “conservadores cristãos” como bodes expiatórios para todos os problemas que eles não sabem explicar.

Bem, Jesus andou com as prostitutas e os ladrões não condenando ninguém e foi um grande revolucionário, realizando inclusive o milagre da multiplicação dos pães, morto por um crime político, um autêntico líder de esquerda, certo? Errado.

É verdade que Jesus perdoou a prostituta, ou a mulher adúltera, que perdoou na cruz um bandido e que realizou o milagre da multiplicação dos pães. Mas havia muitas prostitutas em Israel, e apenas uma foi perdoada. Na cruz haviam dois bandidos, um deles blasfemava e o outro foi perdoado. Jesus multiplicou os pães, mas quando o quiseram fazer rei por conta disso, despediu a multidão e os acusou de interesseiros.

Assim, não se pode dizer que foram as prostitutas, os bandidos ou os pobres que Jesus acolheu, os outcasts. Mas sim, os penitentes.

Mas, penitentes, essa palavra quase desconhecida da nossa época...o que viriam a ser esses penitentes?

O ladrão, a prostituta e tantos outros, reconheceram a existência de algo maior do que eles e a partir desse novo critério, perceberam que andavam mal. E a prostituta lavou os pés do seu mestre com as próprias lágrimas e o bandido, à beira da morte, soube levantar a sua voz para defender à sua honra e ainda fazer uma das mais belas profissões de fé da história...” Lembra-te de mim quando entrares no teu Reino”...

No fundo, somos como esses dois ladrões. E escolhemos a penitência ou a blasfêmia. A vida ou a morte. E mesmo que não tenhamos cometidos crimes graves, quando percebemos a presença de Deus e nos damos conta de todo o bem que poderíamos ter feito e não fizemos, nos reconhecemos não mais do que um ladrão. Um ladrão que recebeu o dom da vida para compartilhar com todos, mas que a guardou só para si.

E quanto mais nos aproximamos da luz, mais percebemos nossos defeitos, erros, vícios, imperfeições, mesmo que para os padrões desta época, que aliás são bem baixos, sejamos pessoas extraordinárias, grandes empreendedores, mães, pais, profissionais, etc...Santo Afonso de Ligório, o maior moralista da história da Igreja dizia que “quanto mais se varre, mais poeira se levanta” e ele, homem santo, soube ao fim da vida dizer: “que bom, não irei mais pecar”. Quanta arrogância, nós, “os certos”, acharmos que merecemos alguma coisa.

Mas quando fazemos penitência, batemos no peito e pedimos perdão, e olhando para cruz pedimos forças para sermos melhores, para sermos o que reconhecemos que não podemos ser sozinhos, oh glória! Oh alegria!

A Igreja soube elevar a adúltera penitente como a primeira entre as virgens. Na Ladainha de Todos os Santos, uma das ladainhas oficiais da Igreja, na parte das virgens, depois de Nossa Senhora temos Maria Madalena, a penitente. Esta mulher que o Evangelho diz que “muito amou e por isso muito foi perdoada".

Ao colocar a pecadora como a primeira no coro das virgens, a Igreja nos ensina que mais do que somente nos perdoar, Cristo deseja se dar inteiro a nós, todo o seu coração, toda a sua vida, não para que sejamos apenas perdoados, mas para atingirmos toda a plenitude de seu amor, como diz Santa Teresinha. E foi assim que a pecadora conseguiu ultrapassar muitos santos e atingir um dos lugares mais altos no céu, porque ela muito amou. Mas, poderíamos dizer, para muito amar, muito mais ela se deixou ser amada.

Na nossa época de vidas dilaceradas, é comum as pessoas desanimarem, desencantarem, viverem um plano B de si mesmas. Maria Madalena, a penitente, nos ensina que há um desígnio, um caminho, uma estrada superior que desconhecemos, um atalho secreto, que nos leva da morte à plenitude de nós mesmos. É preciso deixar-se amar.

E por fim, não poderia deixar de agradecer ao Duvivier, que achando que está chutando um cachorro morto, nos dá possibilidade de conseguir alguns leitores às custas dele. Afinal, como nossa popularidade não costuma ser muito alta, ele acaba aumentando o acesso a blogs e textos católicos com as suas polêmicas pelo menos no Natal e na Páscoa. A Igreja é uma bela jovem de 2000 anos, uma pessoa sensata vai pelo menos lhe pedir uma opinião.


Embora a Igreja não revide os ataques que recebe, como já se disse certa vez, é uma “bigorna que tem desgastado a muitos martelos”. E sobre essa história de onde está Deus, onde está a autoridade da Igreja, bem poderíamos responder: na sua consciência. Pois escrever sobre nós nas nossas festas, é uma coisa que até Freud explica.

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Paráfrase de São Martinho de Dumes (ou Bracarense)

Em tempos confusos, deve-se compreender as trevas a partir das coisas claras, parafraseando São Martinho Bracarense (O Tratado da Vida Honesta, Séc V).

Pois que a beleza da Igreja não cessa, não deixa jamais de ser adornada a Esposa de Cristo. E seus santos brilham tal como rubis, diamantes e jaspes e quais estrelas, mais refulgem quanto mais escura a noite.

O Esposo vem à noite, estejam as velas postas, o azeite preparado. Ele virá, já se ouve o rumor dos seus companheiros ao longe, Ele virá, e colocará sob seus pés tudo que não é belo, perfeito e puro.

Ele nos saudará com o ósculo da paz e seremos dEle e Ele será nosso.

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